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terça-feira, 5 de maio de 2026

Inteligência artificial transforma campanhas eleitorais de 2026 e desafia regras do TSE




                                            Foto: Reprodução / TSE



O uso de inteligência artificial já provoca um terremoto nas campanhas eleitorais deste ano. Com ferramentas de IA, equipes mandam mensagens cada vez mais segmentadas, marqueteiros substituem pesquisas qualitativas por "eleitores sintéticos" para testar a eficácia, vídeos e publicações na internet que levavam um dia e meio para ficarem prontos são finalizados em poucas horas.

Ao mesmo tempo, as campanhas pisam em ovos por causa da resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que restringe a utilização de IA. Está claro para elas que deepfakes eleitorais (vídeos e áudios não autorizados que emulam candidatos ou outras figuras públicas) estão proibidos. Mas existem dúvidas sobre a legalidade de certos recursos.

A Folha conversou com integrantes das equipes de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidatos à Presidência, de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), pré-candidatos ao Governo de São Paulo, e de deputados federais e estaduais. Alguns pediram para não se identificar, afirmando serem informações estratégicas.

Uma das campanhas majoritárias conta com uma equipe de 54 pessoas dedicadas a fazer impulsionamento com nanosegmentação. A campanha consegue customizar uma mensagem do candidato para, por exemplo, atingir mulheres da zona oeste de São Paulo sem plano de saúde e que têm probabilidade de passar a apoiar o político.

Softwares que usam IA monitoram a chamada "sentimentalização" --como as contas de redes sociais reagem a cada conteúdo. Milhões de perfis de redes sociais são "tagueados" para que sejam mapeados os temas que mais reverberam e como ressoam conteúdos do candidato e dos concorrentes.

Todas as campanhas ressaltam, porém, que é importante ter humanos no relacionamento direto com eleitores, porque as pessoas não gostam de interagir com robôs.

Uma campanha quis avaliar qual foi a repercussão do embate entre Romeu Zema, prê-candidato do Novo à Presidência, com o STF (Supremo Tribunal Federal). Em cinco segundos, conseguiu mapear nas redes sociais potenciais detratores e apoiadores, as teses-chave e ter sugestões de resposta.

Todas as principais pré-candidaturas têm IAs treinadas com discursos, reportagens, entrevistas e materiais do candidato e rivais.

"A IA vai 'aprendendo' o tom do discurso do candidato, suas expressões, como ele se posiciona em relação a temas", diz Nara Alves, sócia-diretora da Ela Marketing Político, que trabalha para candidatos de vários partidos.

Isso é usado para os briefings (a descrição do que se espera de cada peça de propaganda política) e para os roteiros, determinando o que seria adequado para falar em determinada cidade. Eles também conseguem ter versões do candidato mais irônico, sério ou agressivo -e depois testam o que funciona melhor usando software de "social listening", que mede reações nas redes sociais.

"A IA vem revolucionando cada processo das campanhas, da criação de conteúdo à segmentação de mensagens e mobilização de apoiadores", diz Bruno Bernardes, sócio da PLTK, agência do marqueteiro Pablo Nobel, responsável pela campanha de Tarcísio.

Os deepfakes, que estão proibidos por resolução de TSE desde 2024, são criticados por todos os marqueteiros.

Segundo Bernardes, a última eleição presidencial argentina mostrou o perigo. Vídeos falsos usando deepfake com a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher contestando Javier Milei e o candidato peronista Sergio Massa cheirando cocaína viralizaram a duas semanas do segundo turno em 2023.

As contas produzindo e disseminando esses conteúdos não são diretamente ligadas aos candidatos.

Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, esse deve ser um dos principais problemas da eleição.

Silveira, que trabalhou na campanha da deputada Tábata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024 e na de Fernando Haddad (PT) ao governo em 2022, espera um uso massivo de contas falsas para distribuir mensagens atacando candidatos, muitas delas com IA.

Apesar de os deepfakes serem a faceta mais visível do uso eleitoral de IA, é nos bastidores que a tecnologia vem fazendo transformações radicais. Para além da segmentação, a criação do conteúdo ganhou muita agilidade.

Um vídeo de Ronaldo Caiado abre com uma imagem de IA de uma bandeira do Brasil tomando tiros e começa a sangrar como se fosse carne humana.

"O Brasil assiste indignado, assustado e impotente à morte de milhares de filhos seus, vítimas da criminalidade", diz o pré-candidato no vídeo.

Segundo o marqueteiro de Caiado, Paulo Vasconcelos, sem IA, levaria quatro dias para fazer a peça. Com IA, demorou algumas horas.

Os locutores dos vídeos foram 100% substituídos por IA, assim como a geração de imagens de apoio.

MANIPULAÇÃO DE CONTEÚDO
Durante a campanha, segundo a resolução do TSE, será preciso informar que o conteúdo foi manipulado. Além disso, no período entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito serão proibidos conteúdos alterados por IA que usem imagem ou voz de candidato ou pessoa pública, mesmo que rotulados.

Algumas campanhas estão recorrendo a chatbots para poupar gastos com pesquisas qualitativas, em que grupos de leitores opinam de forma mais aprofundada sobre temas.

O "eleitor sintético" da SVA Solutions-Galaxies cria, usando dados de grupos reais de eleitores, perfis que reúnem características de determinados segmentos. Por exemplo, "viúvas do PSDB", pessoas de centro-direita que costumavam votar nos tucanos e rejeitam Bolsonaro ou esquerdistas frustrados com o PT.

Esses perfis servem para testar mensagens ou mesmo gerenciar crises. "Quando temos pouca verba para fazer uma pesquisa ampla e entender como lidar com determinada questão do candidato, é uma opção", diz Andrés Benedykt, marqueteiro do candidato a deputado federal José Dirceu (PT).

Uma pesquisa qualitativa bem feita com mil entrevistados pode sair R$ 150 mil. O eleitor sintético custa R$ 65 mil por mês e pode ser acionado a qualquer momento.

Algumas ferramentas ainda suscitam dúvida nos departamentos jurídicos. A customização de mensagens usando IA, com a adaptação de vídeo ou áudio de candidatos para chamar eleitores pelo nome ou mencionar suas cidades de origem, ainda é zona cinzenta.

Alguns advogados acreditam que, desde que haja aviso de uso de IA, seja autorizado pelo candidato e não se trate de propaganda negativa, não há problema.

Newsletter FolhaJus A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha *** Outros acham que se trata de deepfake. Só seria possível usar IA para melhorar qualidade do áudio e vídeo. A resolução do TSE veda o uso "para prejudicar ou para favorecer candidatura" de conteúdo sintético em formato de áudio ou vídeo para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de uma pessoa.

De qualquer maneira, muitos marqueteiros advertem que certos usos de IA podem sair pela culatra. "Acho arriscado fazer customização com áudio, qualquer estranhamento pode acabar gerando rejeição no eleitor", diz o marqueteiro Felipe Pimentel.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Flávio atua para ter palanque com PL candidato ao governo ou Senado em todos os estados

 

Foto: Andressa Anholete / Agência Senado

O PL orientou lideranças estaduais a buscarem a presença do partido nas chapas majoritárias em todos os estados. A ideia é ter, em cada unidade da federação, pelo menos um candidato ao governo ou ao Senado fazendo campanha ativamente para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do partido à Presidência.
 

A escolha dos palanques caberá ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), responsável por escolher os candidatos ao Senado, e ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que definirá os nomes para os governos estaduais.
 

Como mostrou a Folha, Bolsonaro já definiu o palanque em Santa Catarina, com o filho Carlos Bolsonaro (PL) e a deputada federal Caroline de Toni (PL) concorrendo ao Senado. De Toni era o nome preferido de Michelle Bolsonaro (PL) para o posto.
 

Em Goiás, o ex-presidente escolheu o deputado Gustavo Gayer (PL) para disputar uma das vagas de senador. A ordem de Bolsonaro para a segunda vaga é deixá-la para indicação do governador Ronaldo Caiado (PSD), que é pré-candidato à Presidência. A ideia é amarrar apoio a Flávio já no primeiro turno, caso o goiano desista de tentar o Planalto, ou no segundo turno.
 

Flávio está nos Estados Unidos para participar de um evento conservador com o irmão, depois de retornar de outra viagem internacional e do Carnaval. Na volta, ele vai se dedicar à articulação nacional da sua candidatura, o que passa pela montagem dos palanques nos estados. Para isso, tem um encontro previsto com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), na próxima semana e esteve com Bolsonaro, preso na Papudinha, na semana passada.
 

A determinação do PL é que, mesmo em estados onde o PL não lance a cabeça de chapa, haja pelo menos um candidato ao Senado para garantir o palanque a Flávio. O partido também busca evitar que candidatos ao governo de partidos aliados tentem esconder a associação com o filho do ex-presidente, principalmente em estados lulistas.
 

Segundo líderes, o partido precisa estar na disputa majoritária, mesmo quando não for possível concorrer ao governo, para que pelo menos um candidato reforce aos eleitores o número 22, que será utilizado por Flávio. A estratégia, porém, esbarra na montagem de alianças locais nos estados.
 

Para estrategistas do PL, é mais valioso um candidato a governador que consiga transferir votos a Flávio e vice-versa —ainda que seja um nome de outro partido. Nessas situações, o PL tentará compensar com a candidatura própria ao Senado.
 

Outra estratégia é ter candidatos a deputado federal puxadores de votos, o que também poderia balancear a ausência de um candidato próprio ao governo.
 

Integrantes do partido dizem que uma aliança com a federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, já está em curso em alguns estados, incluindo o Rio de Janeiro. O PL também almeja trazer o Republicanos para a coligação nacional que vai lançar Flávio. Ainda são necessários, porém, ajustes em estados onde os interesses do PL colidem com os do centrão.
 

O arranjo em Santa Catarina, por exemplo, afasta o PP de uma aliança com Flávio. Ao defender uma chapa pura na corrida pelo Senado, Bolsonaro vai de encontro ao governador Jorginho Mello (PL), que vai concorrer à reeleição e preferia apoiar a reeleição do senador Esperidião Amin (PP).
 

Preterido por Bolsonaro, Amin deve disputar o Senado independentemente do acerto entre os partidos, mas que sua preferência era integrar a chapa do PL, o que também seria estratégico para o partido de Valdemar.
 

Em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, o PL estuda como entrar na chapa majoritária. O partido apoiará a reeleição de Tarcísio, que já tem o compromisso de lançar ao Senado o deputado Guilherme Derrite (PP), seu ex-secretário de Segurança Pública.
 

Diante da aliança com o Republicanos e o PP, o PL passou a testar diferentes nomes do partido para a segunda vaga do Senado, que será indicada por Bolsonaro. Além disso, também pleiteia ocupar a vaga de vice de Tarcísio, que hoje é do PSD.
 

Mas a disputa está congestionada na direita paulista, pois o deputado Ricardo Salles (Novo), ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, anunciou que disputará o Senado neste ano.
 

Como a orientação é buscar adesão de partidos de direita e de centro-direita, o PL trabalha ainda com a possibilidade de que Flávio tenha mais de um palanque em certos estados, o que seria uma vantagem em relação a Lula (PT).
 

Em Minas Gerais, o cenário está aberto para candidaturas de direita. O vice-governador Matheus Simões (PSD) pretende concorrer ao governo, apoiando o governador Romeu Zema (Novo) à Presidência. Flávio tenta convencer Zema a ser seu vice, mas até agora sem sucesso.
 

Em outra via, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) busca se consolidar como candidato de Bolsonaro.
 

Desconfiado que ambos podem não se dedicar a fazer campanha para ele, Flávio cogitou lançar Nikolas Ferreira (PL) ao governo para garantir um palanque, mas o deputado não quer concorrer ao posto, segundo o próprio senador.
 

Por outro lado, o possível lançamento de uma candidatura presidencial pelo PSD de Gilberto Kassab pode tirar de Flávio o apoio de candidatos a governador da centro-direita em alguns estados, o que é minimizado por entusiastas do senador.
 

A leitura é a de que a pulverização da oposição a Lula no primeiro turno não é ruim, considerando que deve haver uma reunificação no segundo turno, com novos apoios ao senador, mais cotado para avançar à segunda fase da disputa contra o petista.
 

Quem acompanha a preparação do PL para a eleição de 2026 diz ainda que o partido vai ser mais competitivo em termos de candidatos a governador do que em 2022. Na última eleição nacional, o PL lançou candidatos próprios ao Executivo em 12 estados e elegeu 2 —Jorginho Mello em Santa Catarina e Cláudio Castro no Rio de Janeiro
 

No Mato Grosso, por exemplo, o PL apoiou Mauro Mendes (União Brasil) para o governo em 2022. Desta vez, o partido quer ter um palanque próprio com Wellington Fagundes (PL), senador eleito no pleito passado.
 

Em Pernambuco, há uma situação única. O PL trabalha para lançar, de maneira avulsa, somente um candidato ao Senado. Trata-se do ex-prefeito de Jaboatão Anderson Ferreira. A ideia é concentrar esforços para levar pelo menos uma vaga de senador diante de uma divisão da esquerda no estado, que tem forte tendência lulista.